Mapurunga diz, sabiamente, sobre minha Icó (1682), no libreto 'Bem Vindo ao Reino do Louro e da Peixada' que esta resistiu ao cólera, a secas e às intenções políticas de legá-la ao esquecimento. Eu faço Cultura nesta cidade onde o Teatro mais antigo de Ceará fez 150 anos em 2010 e recebeu desprezo de presente – o Teatro da Ribeira dos Icós (1860)–. Coordeno o Ponto de Cultura Criativa Musical (Studio Sonoro)e sócio da APROARTI-Assoc Produtores de Artesanato, Gestores Cult. e Artistas de Icó
quinta-feira, 5 de maio de 2011
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Carta dos Signatários da Cultura a Presidente Dilma
Carta à Excelentíssima Presidenta Dilma Roussef
*Excelentíssima Presidenta Dilma Rousseff,*
Esta carta é uma manifestação de pessoas e organizações da sociedade civil e busca expressar nosso extremo desconforto com as mudanças ocorridas no campo das políticas culturais, zerando oito anos de acúmulo de discussões e avanços que deram visibilidade e interlocução a um Ministério até então subalterno. Frustrando aqueles que viam no simbolismo da nomeação da primeira mulher Ministra da Cultura do Brasil a confirmação de uma vitória, essa gestão rapidamente se encarregou de desconstruir não só as conquistas da gestão anterior, mas principalmente o inédito, amplo e produtivo ambiente de debate que havia se estabelecido.
Os signatários desta carta acreditam na continuidade e no aprofundamento das políticas bem-sucedidas do governo Lula. Essas políticas estão sintetizadas no Plano Nacional de Cultura, fruto de extenso processo de consultas públicas que foi transformado em lei sancionada pelo presidente, e que agora está sendo ignorado pela ministra. Afirmamos que, se a gestão anterior teve acertos, foi por procurar aproximar o Ministério das forças vivas da cultura, compreendendo que há um novo protagonismo por parte de indivíduos, grupos e populações até então tidos como “periféricos”, entendendo as extraordinárias possibilidades da Cultura Digital. Essa não é apenas uma discussão sobre ferramental tecnológico e jurídico, mas sobre todo um novo contexto criativo e cultural, pois essas tecnologias têm sido apropriadas e reinventadas em alguma medida por esses novos atores. É nesse território fundamental, da inserção da Cultura Digital no centro das discussões de políticas culturais do Ministério e da busca da capilaridade de programas como o Cultura Viva, com os Pontos de Cultura, que a Ministra sinalizou firmemente um retrocesso.
Ao bloquear o processo de reforma da lei dos Direitos Autorais, ignorando as manifestações recebidas durante 6 anos de debates, 150 reuniões realizadas em todo o país, 9 seminários nacionais e internacionais, 75 dias de consulta pública através da internet que receberam 7863 contribuições, a Ministra afronta todo um enorme esforço democrático de compreensão e elaboração. Se há uma explicação constrangedora nessa urgência em barrar uma dinâmica política tão saudável, é a de vir em socorro a instituições ameaçadas em seus privilégios, como o ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) e as associações que o compõem, que apoiaram de forma explícita e decidida as políticas culturais e o candidato derrotado no pleito eleitoral presidencial.
Mas esse “socorro”, como dissemos, se dá ao arrepio da Lei 12.343 de 2 de dezembro de 2010, que aprovou o PNC, estabelecendo claramente a obrigação de reforma da Lei dos Direitos Autorais (conforme os itens 1.9.1 e 1.9.2 que determinam “criar instituição especificamente voltada à promoção e regulação de direitos autorais e suas atividades de arrecadação e distribuição” e “revisar a legislação brasileira sobre direitos autorais, com vistas em equilibrar os interesses dos criadores, investidores e usuários, estabelecendo relações contratuais mais justas e critérios mais transparentes de arrecadação e distribuição”). Ao afirmar que o texto da lei é “ditatorial” e que a proposta construída durante o governo Lula é “controversa” e não atende os “interesses dos autores”, a Ministra deliberadamente mistura o interesse dos criadores com o dos intermediários, e contrabandeia para o seio do governo Dilma precisamente as posições derrotadas com a eleição da Presidenta.
A questão da retirada da licença Creative Commons do portal do MinC também merece ser mencionada, por seu simbolismo. O Ministério da Cultura do governo Lula foi pioneiro em reconhecer que as leis de direito de autor estão em descompasso com as práticas desta época, e que seria imperioso aprimorá-las em favor dos criadores e do amplo acesso à cultura. Esse avanço foi expresso no PNC no item 1.9.13, que prevê ”incentivar e fomentar o desenvolvimento de produtos e conteúdos culturais intensivos em conhecimento e tecnologia, em especial sob regimes flexíveis de propriedade intelectual”. Ao contrário do que tem dito a ministra, as licenças CC e similares visam regular a forma de remuneração do artista, e não impedi-la. Elas buscam ampliar o poder do autor em relação à sua obra e adaptar-se às novas formas de produção, distribuição e remuneração, aos novos modelos de negócio que essas tecnologias possibilitam.
Assim, entendemos que as iniciativas da atual gestão do Ministério da Cultura não são fiéis nem à sua campanha presidencial, nem ao Plano Nacional de Cultura e nem à discussão acumulada, representando, na melhor das hipóteses, um voluntarismo desinformado e desastroso, e na pior delas um retrocesso deliberado. Apoiamos a Presidenta Dilma Rousseff em sua manifestada intenção de continuar valorizando e promovendo a cultura brasileira, fortalecendo uma liderança global em discussões onde a nossa postura inovadora vinha se destacando dos modelos conservadores pregados pela indústria cultural hegemônica dos Estados Unidos e da Europa. Para isso é necessário que o Ministério da Cultura se coadune à perspectiva do governo Dilma, de compreender, aprofundar e ampliar as conquistas das políticas culturais do governo Lula.
*Signatários*
*Excelentíssima Presidenta Dilma Rousseff,*
Esta carta é uma manifestação de pessoas e organizações da sociedade civil e busca expressar nosso extremo desconforto com as mudanças ocorridas no campo das políticas culturais, zerando oito anos de acúmulo de discussões e avanços que deram visibilidade e interlocução a um Ministério até então subalterno. Frustrando aqueles que viam no simbolismo da nomeação da primeira mulher Ministra da Cultura do Brasil a confirmação de uma vitória, essa gestão rapidamente se encarregou de desconstruir não só as conquistas da gestão anterior, mas principalmente o inédito, amplo e produtivo ambiente de debate que havia se estabelecido.
Os signatários desta carta acreditam na continuidade e no aprofundamento das políticas bem-sucedidas do governo Lula. Essas políticas estão sintetizadas no Plano Nacional de Cultura, fruto de extenso processo de consultas públicas que foi transformado em lei sancionada pelo presidente, e que agora está sendo ignorado pela ministra. Afirmamos que, se a gestão anterior teve acertos, foi por procurar aproximar o Ministério das forças vivas da cultura, compreendendo que há um novo protagonismo por parte de indivíduos, grupos e populações até então tidos como “periféricos”, entendendo as extraordinárias possibilidades da Cultura Digital. Essa não é apenas uma discussão sobre ferramental tecnológico e jurídico, mas sobre todo um novo contexto criativo e cultural, pois essas tecnologias têm sido apropriadas e reinventadas em alguma medida por esses novos atores. É nesse território fundamental, da inserção da Cultura Digital no centro das discussões de políticas culturais do Ministério e da busca da capilaridade de programas como o Cultura Viva, com os Pontos de Cultura, que a Ministra sinalizou firmemente um retrocesso.
Ao bloquear o processo de reforma da lei dos Direitos Autorais, ignorando as manifestações recebidas durante 6 anos de debates, 150 reuniões realizadas em todo o país, 9 seminários nacionais e internacionais, 75 dias de consulta pública através da internet que receberam 7863 contribuições, a Ministra afronta todo um enorme esforço democrático de compreensão e elaboração. Se há uma explicação constrangedora nessa urgência em barrar uma dinâmica política tão saudável, é a de vir em socorro a instituições ameaçadas em seus privilégios, como o ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) e as associações que o compõem, que apoiaram de forma explícita e decidida as políticas culturais e o candidato derrotado no pleito eleitoral presidencial.
Mas esse “socorro”, como dissemos, se dá ao arrepio da Lei 12.343 de 2 de dezembro de 2010, que aprovou o PNC, estabelecendo claramente a obrigação de reforma da Lei dos Direitos Autorais (conforme os itens 1.9.1 e 1.9.2 que determinam “criar instituição especificamente voltada à promoção e regulação de direitos autorais e suas atividades de arrecadação e distribuição” e “revisar a legislação brasileira sobre direitos autorais, com vistas em equilibrar os interesses dos criadores, investidores e usuários, estabelecendo relações contratuais mais justas e critérios mais transparentes de arrecadação e distribuição”). Ao afirmar que o texto da lei é “ditatorial” e que a proposta construída durante o governo Lula é “controversa” e não atende os “interesses dos autores”, a Ministra deliberadamente mistura o interesse dos criadores com o dos intermediários, e contrabandeia para o seio do governo Dilma precisamente as posições derrotadas com a eleição da Presidenta.
A questão da retirada da licença Creative Commons do portal do MinC também merece ser mencionada, por seu simbolismo. O Ministério da Cultura do governo Lula foi pioneiro em reconhecer que as leis de direito de autor estão em descompasso com as práticas desta época, e que seria imperioso aprimorá-las em favor dos criadores e do amplo acesso à cultura. Esse avanço foi expresso no PNC no item 1.9.13, que prevê ”incentivar e fomentar o desenvolvimento de produtos e conteúdos culturais intensivos em conhecimento e tecnologia, em especial sob regimes flexíveis de propriedade intelectual”. Ao contrário do que tem dito a ministra, as licenças CC e similares visam regular a forma de remuneração do artista, e não impedi-la. Elas buscam ampliar o poder do autor em relação à sua obra e adaptar-se às novas formas de produção, distribuição e remuneração, aos novos modelos de negócio que essas tecnologias possibilitam.
Assim, entendemos que as iniciativas da atual gestão do Ministério da Cultura não são fiéis nem à sua campanha presidencial, nem ao Plano Nacional de Cultura e nem à discussão acumulada, representando, na melhor das hipóteses, um voluntarismo desinformado e desastroso, e na pior delas um retrocesso deliberado. Apoiamos a Presidenta Dilma Rousseff em sua manifestada intenção de continuar valorizando e promovendo a cultura brasileira, fortalecendo uma liderança global em discussões onde a nossa postura inovadora vinha se destacando dos modelos conservadores pregados pela indústria cultural hegemônica dos Estados Unidos e da Europa. Para isso é necessário que o Ministério da Cultura se coadune à perspectiva do governo Dilma, de compreender, aprofundar e ampliar as conquistas das políticas culturais do governo Lula.
*Signatários*
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Todo Mumdo e Ninguém - Livre adaptação da Obra de Gil Vicente
Adaptação livre da obra de Gil Vicente: Todo Mundo e Ninguém
Entra Todo Mundo em grande luxo, elegância e uma arrogância esnobe.
O coro do Povo: ( Faz ou fazem todo o clima das cenas com expressivos OOOOOOOOOOOOOOOH!!!!): Oh! de admiração antes de cada fala.
Todo Mundo: Vejam só, eu sou Todo mundo,
indiscutível é meu valor.
Ando sempre procurando
da vida o grande sabor;
talvez seja luxo e riqueza,
ou quem sabe não ter a dor
de ser pobre nesta vida
De não ser servo e sim, o senhor
Entra Ninguém com uma singeleza quase maltrapilha e se admira da ansiedade de Todo Mundo:
Ninguém: parece-me tão aflito
como num incansável procurar.
Não vês que tudo é mais simples?
Não te precisas cansar.
A vida nos dá de tudo.
Está ao lado. É só pegar.
(meio cismado)
Se te ocupas em lidar
para bens acumular
como posso te chamar?
Espero que o teu nome
venha, em mim, consolidar
Está ao lado. É só pegar.
(meio cismado)
Se te ocupas em lidar
para bens acumular
como posso te chamar?
Espero que o teu nome
venha, em mim, consolidar
as suspeita que aqui trago
e possa de pronto afirmar:
deves ser a maioria
e possa de pronto afirmar:
deves ser a maioria
(lamentando)
Nem sei se te podes mudar .
Todo Mundo: Lógico! Eu sou Todo Mundo!!!
E vou tratando de avisar.
Essa história de pobreza,
dividir lucro, participar...
É lorota pra boi dormir!!
Eu quero mesmo é me arrumar!!!!!
Ninguém: Vejo logo que teus olhos
só na soberba se faz brilhar.
Eu, com toda franqueza,
tenho que te avisar.
Eu procuro a consciência.
Virtude melhor não há.
Por isso me chamo Ninguém.
Permita eu me apresentar
O coro do povo: OOOOOOOOOOOOOOOH!!!!
Nem sei se te podes mudar .
Todo Mundo: Lógico! Eu sou Todo Mundo!!!
E vou tratando de avisar.
Essa história de pobreza,
dividir lucro, participar...
É lorota pra boi dormir!!
Eu quero mesmo é me arrumar!!!!!
Ninguém: Vejo logo que teus olhos
só na soberba se faz brilhar.
Eu, com toda franqueza,
tenho que te avisar.
Eu procuro a consciência.
Virtude melhor não há.
Por isso me chamo Ninguém.
Permita eu me apresentar
O coro do povo: OOOOOOOOOOOOOOOH!!!!
( um só fala ) Ora, veja minha gente
que o duelo ira começar
que o duelo ira começar
(outro fala) Todo Mundo e Ninguém
Irão a luta iniciar
Irão a luta iniciar
(outro fala) Um duelo de vida ou morte
E nós é que vamos julgar
Escrevendo as virtudes
que eles puderem apontar
E nós é que vamos julgar
Escrevendo as virtudes
que eles puderem apontar
(outro fala) Assim como as mazelas
que, com certeza, iram mostrar
Já temos cá uma peleja
Ninguém a consciência almeja
E Todo Mundo só quer enricar
(O coro do povo cai na gargalhada)
Ninguém: Nesta busca incessante,
não te cansas de buscar
só a coisas que reluzem
e te fazem de tolo ao brilhar?
Vem comigo buscar virtude
ela é leve, não vais te cansar
Todo Mundo: Acorda, oh! Ninguém! Estais louco?
Se vivo neste sufoco,
muita honra quero ajuntar!
Ser honrado toda a vida,
respeitado, ter guarida
onde quer que eu chegar!!
O coro do povo: OOOOOOOOOOOOOOOH!!!!
que, com certeza, iram mostrar
Já temos cá uma peleja
Ninguém a consciência almeja
E Todo Mundo só quer enricar
(O coro do povo cai na gargalhada)
Ninguém: Nesta busca incessante,
não te cansas de buscar
só a coisas que reluzem
e te fazem de tolo ao brilhar?
Vem comigo buscar virtude
ela é leve, não vais te cansar
Todo Mundo: Acorda, oh! Ninguém! Estais louco?
Se vivo neste sufoco,
muita honra quero ajuntar!
Ser honrado toda a vida,
respeitado, ter guarida
onde quer que eu chegar!!
O coro do povo: OOOOOOOOOOOOOOOH!!!!
Precisamos atentamente
este veredicto copiar:
Todo Mundo só quer ter honras,
mas virtudes, ninguém é quem vai buscar.
Não se admira desta vida
está do jeito que está.
É fome, é bala perdida,
é corrupção, é de lascar
este veredicto copiar:
Todo Mundo só quer ter honras,
mas virtudes, ninguém é quem vai buscar.
Não se admira desta vida
está do jeito que está.
É fome, é bala perdida,
é corrupção, é de lascar
Todo Mundo: Quero ser glorificado
Em outdoor iluminado
Estar na mídia e de verdade
Ser uma celebridade
Por todos ser o louvado
Um mito impar aclamado
Estar na mídia e de verdade
Ser uma celebridade
Ninguém: Para um homem como eu,
o que carece e o que falta
é estar sempre aprendendo
e qualquer coisa que eu faço,
não estando com modo e graça,
tenha quem me repreenda,
dando-me régua e compasso.
O coro do povo: OOOOOOOOOOOOOOOH!!!!
Que perola de comparação
nós podemos aqui citar:
Todo Mundo quer ser louvado,
celebridade e pop star,
mas, Ninguém quer ser corrigido
em tudo aquilo que faz.
Vejam a que bela lição
nos remete este rapaz!
Todo mundo: pois eu busco nessa vida
a ela própria e ao que nela há.
Ou qualquer ente sortudo
que isto possa me ofertar.
Dar a minha própria vida
um valor único, sem par!
E pra isso não meço esforços,
posso matar ou roubar!
Posso fazer outras coisas
se, for o caso, precisar.
Viver acima de tudo,
custe isto o que custar!!!!!
Ninguém: A vida é nova todo dia!!
Está sempre a transmutar!!!!
Não a conheço e quem diria
que um dia eu pudesse afirmar,
que só à morte eu conheço –
ela já me fez chorar – .
A vida é sempre um começo
em cada novo despertar!
Coro do povo: OOOOOOOOOOOOOOOH!!!!
Que bela resenha teremos
para a descendência deixar!
Parece até uma incoerência,
por isso é bom anotar:
Todo Mundo vive a vida
da maneira melhor que há.
Já Ninguém conhece a morte,
ou pra ela vive a se preparar.
Vamos até fazer um mote:
Todo mundo busca vida
E Ninguém conhece a morte
Todo Mundo: Por falar nesta asneira,
tem algo que eu não concordo.
É com o tal do paraíso
não ser privado, um consórcio.
Imagina um paraíso
cheio de gente a incomodar?
Tipo paraíso público.... (com nojo)
Isso precisa mudar....
Agrada-me os ferais,
Mas, só se for particular.
Ninguém: Eu creio que meus ouvidos
estão querendo me enganar.
Será que eu ouvi direito
este sujeito falar??
Eu pago o que for preciso
pra nos ferais entrar!
Ainda sentirei – me um devedor
na presença de Nosso Senhor
como se ainda devesse
muito mais a pagar!
O coro do povo: OOOOOOOOOOOOOOOH!!!!
Esta vai se tornar ‘Máxima’
e para sempre hão de lembrar!!
Todo mundo se agrada
de no paraíso ficar,
mas Ninguém paga o que deve
e ainda quer se endividar
Todo Mundo: nesta minha desventura;
nesta busca sem ter fim,
sou fã de uma boa mentira
e enganar está pra mim!!
É próprio de minha pessoa
passar a perna e, numa boa,
trocar o bom pelo ruim
Ninguém: Creio que não vás tão longe
com as pernas da mentira.
Não podes levar o fardo
e enganar traz-te a ruína
Uso sempre da verdade
Mesmo que doa, desgaste,
Mas, a verdade que se diga!!!
O coro do povo: OOOOOOOOOOOOOOOH!!!!
escutaram, meus amigos,
a grande contradição??
É preciso que anotemos,
não percamos a citação!!!!
Todo Mundo é mentiroso
e vive de enganação.
Porém, Ninguém diz a verdade
e vive nesta situação.
A mentira ou a verdade???
Eis a grade opção!!
Ninguém: Diz de uma vez, conte logo,
o que ainda buscas encontrar?
Todo mundo: Merecer lisonja muita
e muita lisonja ofertar!!!!!
Sair deitando elogios
a todos que encontrar
e receber assim de todos
os que eles têm para me dar!!!!
Ninguém: Pobre de ti, és um coitado!!!
Vives iludido e enganado,
querendo ser lisonjeado?
Eu, de ti, estou desenganado!!!
Pois não me iludo. Ao contrário!!
O coro do povo: OOOOOOOOOOOOOOOH!!!!
A que conclusão chegamos
nós, aqui, neste senado?
A quem vamos inferir
a razão e o sensato?
Todo Mundo é só lisonja
e Ninguém desenganado.
É hora de Todo Mundo
ver a vida como Ninguém.
Todo mundo vive querendo
nesta vida se dar bem,
porém Ninguém vota direito
e contribui do seu jeito
pra mudar a situação!
Se Todo Mundo acordar,
Ninguém vai precisar chorar
por não poder se alimentar,
ou ter escola pra se educar,
ter saúde se precisar...
É Todo Mundo se irmanar
E Ninguém jamais será
injustiçado aqui ou acolá.
Todos: Por hora anotamos o bastante
Vocês aí não vão se enganar.
Logo que saírem daqui
Cuidem logo em atinar:
Todo mundo vai falar bem
Ninguém vai aos outros contar,
Pra essa lição de vida
Como boa nova espalhar
(saúdam o público com gritos , pulos e grande entusiasmo
O Original
Um rico mercador, chamado "Todo o Mundo" e um homem pobre cujo nome é "Ninguém", encontram-se e põem-se a conversar sobre o que desejam neste mundo. Em torno desta conversa, dois demônios (Belzebu e Dinato) tecem comentários espirituosos, fazem trocadilhos, procurando evidenciar temas ligados à verdade, à cobiça, à vaidade, à virtude e à honra dos homens. Representada pela primeira vez em 1532, como parte de uma peça maior, chamada Auto da Lusitânia (no século XVI, chama-se auto ao drama ou comédia teatral), a obra é de autoria do criador do teatro português, Gil Vicente. |
Entra Todo o Mundo, rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; e logo após, um homem, vestido como pobre. Este se chama Ninguém e diz: |
Ninguém: | Que andas tu aí buscando? | |
Todo o Mundo: | Mil cousas ando a buscar: delas não posso achar, porém ando porfiando por quão bom é porfiar. | |
Ninguém: | Como hás nome, cavaleiro? | |
Todo o Mundo: | Eu hei nome Todo o Mundo e meu tempo todo inteiro sempre é buscar dinheiro e sempre nisto me fundo. | |
Ninguém: | Eu hei nome Ninguém, e busco a consciência. | |
Belzebu: | Esta é boa experiência: Dinato, escreve isto bem. | |
Dinato: | Que escreverei, companheiro? | |
Belzebu: | Que ninguém busca consciência. e todo o mundo dinheiro. | |
Ninguém: | E agora que buscas lá? | |
Todo o Mundo: | Busco honra muito grande. | |
Ninguém: | E eu virtude, que Deus mande que tope com ela já. | |
Belzebu: | Outra adição nos acude: escreve logo aí, a fundo, que busca honra todo o mundo e ninguém busca virtude. | |
Ninguém: | Buscas outro mor bem qu'esse? | |
Todo o Mundo: | Busco mais quem me louvasse tudo quanto eu fizesse. | |
Ninguém: | E eu quem me repreendesse em cada cousa que errasse. | |
Belzebu: | Escreve mais. | |
Dinato: | Que tens sabido? | |
Belzebu: | Que quer em extremo grado todo o mundo ser louvado, e ninguém ser repreendido. | |
Ninguém: | Buscas mais, amigo meu? | |
Todo o Mundo: | Busco a vida a quem ma dê. | |
Ninguém: | A vida não sei que é, a morte conheço eu. | |
Belzebu: | Escreve lá outra sorte. | |
Dinato: | Que sorte? | |
Belzebu: | Muito garrida: Todo o mundo busca a vida e ninguém conhece a morte. | |
Todo o Mundo: | E mais queria o paraíso, sem mo ninguém estorvar. | |
Ninguém: | E eu ponho-me a pagar quanto devo para isso. | |
Belzebu: | Escreve com muito aviso. | |
Dinato: | Que escreverei? | |
Belzebu: | Escreve que todo o mundo quer paraíso e ninguém paga o que deve. | |
Todo o Mundo: | Folgo muito d'enganar, e mentir nasceu comigo. | |
Ninguém: | Eu sempre verdade digo sem nunca me desviar. | |
Belzebu: | Ora escreve lá, compadre, não sejas tu preguiçoso. | |
Dinato: | Quê? | |
Belzebu: | Que todo o mundo é mentiroso, E ninguém diz a verdade. | |
Ninguém: | Que mais buscas? | |
Todo o Mundo: | Lisonjear. | |
Ninguém: | Eu sou todo desengano. | |
Belzebu: | Escreve, ande lá, mano. | |
Dinato: | Que me mandas assentar? | |
Belzebu: | Põe aí mui declarado, não te fique no tinteiro: Todo o mundo é lisonjeiro, e ninguém desenganado. |
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